Frei Raniero: “A cruz não está contra o mundo, mas pelo mundo”

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O Papa Francisco presidiu na tarde desta Sexta-feira Santa, 14, na Basílica de São Pedro, a celebração da Paixão do Senhor. A homilia da cerimônia, intitulada “A cruz, única esperança do mundo”, foi proferida pelo pregador da Casa Pontifícia, frei Raniero Cantalamessa.

O frei iniciou desta a narrativa da Paixão de Cristo, um relato, segundo ele, de uma morte violenta. “Notícias de mortes, e mortes violentas, quase nunca faltam nos noticiários vespertinos”, ressaltou o Frei, lembrando as violências últimos dias, dentre elas a dos 38 cristãos coptas assassinados no Egito no Domingo de Ramos.

“Estas notícias se sucedem com tal rapidez, que nos fazem esquecer, a cada noite, as do dia anterior. Por que, então, após 2000 anos, o mundo ainda recorda, como se tivesse acontecido ontem, a morte de Cristo? É que esta morte mudou para sempre o rosto da morte; ela deu um novo sentido à morte de cada ser humano”, disse frei Cantalamessa.

Há uma expressão que foi criada justamente para descrever a profundidade da maldade que pode aglutinar-se no seio da humanidade: “coração de trevas”. Segundo o frei, depois do sacrifício de Cristo, mais profundo do que o “coração de trevas”, palpita no mundo um “coração de luz”. “Cristo, de fato, subindo ao céu, não abandonou a terra, assim como, encarnando-se, não tinha abandonado a Trindade”, afirmou.

Para o religioso, a cruz não está, portanto, contra o mundo, mas pelo mundo, para dar um sentido a todo o sofrimento que houve, que há e que haverá na história humana. A cruz, disse o frei, é a proclamação viva de que a vitória final não é de quem triunfa sobre os outros, mas de quem triunfa sobre si mesmo; não daqueles que causam sofrimento, mas daqueles que sofrem.

“Tornaríamos vã, no entanto, esta liturgia da Paixão, se ficássemos, como os sociólogos, na análise da sociedade em que vivemos. Cristo não veio para explicar as coisas, mas para mudar as pessoas. O coração de trevas não é apenas aquele de algum malvado escondido no fundo da selva, e nem mesmo aquele da nação e da sociedade que o produziu. Em diferente medida está dentro de cada um de nós”, disse Frei Cantalamessa, que acrescentou:

“Coração de Pedra é o coração fechado à vontade de Deus e ao sofrimento dos irmãos, o coração de quem acumula quantidades ilimitadas de dinheiro e permanece indiferente ao desespero de quem não tem um copo de água para dar ao próprio filho; é também o coração de quem se deixa completamente dominar pela paixão impura, pronto para matar ou a levar uma vida dupla. Para não ficarmos com o olhar sempre dirigido para o exterior, para os demais, digamos mais concretamente: é o nosso coração de ministros de Deus e de cristãos praticantes se vivemos ainda, basicamente, para nós mesmos e não para o Senhor”.

Para frei Raniero, o coração de carne, prometido por Deus aos profetas, já está presente no mundo: “é o Coração de Cristo trespassado na cruz, aquele que veneramos como ‘o Sagrado Coração’. “Ao receber a Eucaristia, acreditamos firmemente que aquele coração vem bater também dentro de nós. Olhando para a cruz daqui a pouco digamos do profundo do coração, como o publicano no templo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!’, e também nós, como ele, voltaremos para casa ‘justificados’”, concluiu.

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