dogmas da igreja

O que a Igreja fala sobre: Os dogmas

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Em um mundo marcado pelo relativismo e pelo individualismo falar de dogmas parece algo sem sentido. Muitos tratam os dogmas simplesmente como uma regra que se deve aceitar cegamente e isto poderia ferir a “liberdade” de cada um. Ainda se diz que as definições dogmáticas são coisas do passado e que a teologia e a Igreja devem caminhar e desprender-se do passado. Outro argumento que se pode ouvir refere-se à limitação que os dogmas trazem para o pensamento, de modo especial o pensamento teológico. Será que tudo isto é verdade? Os dogmas não tem lugar no mundo e na Igreja de hoje?

A palavra dogma vem do grego dokein significando “crer”, “decidir”. Durante muito tempo o termo foi utilizado na linguagem jurídica e filosófica. No início da Igreja a palavra dogma referia-se a qualquer doutrina, fosse ela falsa ou ortodoxa (verdadeira). Contudo, muitos Padres utilizavam o termo em expressões como “dogma do Senhor”, “dogma do Evangelho”, “dogma de Deus” e ainda “dogma da Igreja” (cf. Lacoste¹, 2004, p. 568). A partir do século XVI o Magistério da Igreja usa o termo “dogma” no sentido de verdade de fé, se contrapondo à heresia. Não que anteriormente não existisse a noção de uma doutrina contrária à fé. Havia a noção vivida, mas não havia o nome ou o conceito claro dessa ideia (cf. Boff², 2012, p. 250).

A realidade dos dogmas revela algo muito mais profundo do que puramente “acredite e fique quieto”. Não são determinações humanas escritas arbitrariamente. Nenhum papa acordou de manhã e pensou: “Hoje não tenho nada pra fazer… acho que vou proclamar um dogma!”. O Catecismo da Igreja Católica define dogma como “luzes no caminho de nossa fé que o iluminam e tornam seguro” (cf. Catecismo³, n. 89). Sendo assim, o dogma perde a conotação de algo meramente humano e ganha o sentido de Verdade revelada por Deus, e declarada pela autoridade eclesial. A Igreja não inventa dogmas, mas interpreta a Revelação de Deus consignada na Escritura e na Tradição, declarando sistematicamente alguns objetos de fé.

Deste modo, quando a Igreja proclama dogmas, não o faz como novas revelações, mas como o desdobramento da Revelação fundamental atestada na Escritura e transmitida pela Tradição (Lacoste¹, 2004, p. 571). Esta autoridade que tem a Igreja provém do próprio Cristo. Ele, que é a Verdade, conferiu à sua Igreja uma participação em sua própria infalibilidade, a fim de manter a Igreja na pureza da fé transmitida pelos apóstolos (cf. Catecismo³, n. 889). Podemos dizer que se Cristo é a Verdade, quem está com Ele não está no erro. E se Cristo está presente na Igreja, ela também não erra em matéria de fé, não obstante o pecado dos homens que a compõe. Goza desta infalibilidade de Cristo todo o povo de Deus quando está em comunhão acerca da fé, também o Colégio Episcopal quando exerce o seu magistério, sobretudo em um Concílio Ecumênico, e de modo especial, o Papa, como sucessor de Pedro, chefe do colégio dos Bispos e na qualidade de pastor e doutor supremo de todos os fieis e encarregado de confirmar seus irmãos na fé (Catecismo³, n. 891). Esta infalibilidade não pode ser falseada e nem limitada. Contudo, tal infalibilidade “está em permanente dependência do Espírito Santo, o qual, com providente sapiência e com a unção da sua graça, guia a Igreja para a verdade plena, até à vinda gloriosa do seu Senhor” (Mysterium Ecclesiae4, n. 2).

Devido a esta autoridade, o dogma tem para a Igreja valor de obrigação. O Catecismo afirma que quando a Igreja define dogmas “obriga o povo cristão a uma adesão irrevogável de fé, propõe verdades contidas na Revelação divina ou verdades que com estas têm uma conexão necessária” (Catecismo³, n. 88). Esta obrigação foi necessária ao longo da história devido a pressão das heresias e doutrinas contrárias à fé, com o objetivo de excluir um erro, proteger a verdade e transmiti-la na integridade (Boff², 2012, p. 251). Contudo, os dogmas não limitam o pensamento nem cerceiam a liberdade. O teólogo Clodovis Boff, destaca que “os dogmas não são barreiras à frente do caminho, mas corrimãos ao lado dele: existem para proteger o caminhante e apoiá-lo em sua ascensão” (Boff², 2012, p. 250). Por este motivo o dogma tem caráter imutável.  E se por um lado, os dogmas são luzes no caminho, como afirmamos, é verdade também que se nossa vida for reta, nossa inteligência e nosso coração estarão abertos e dispostos a acolher a luz dos dogmas da fé (cf. Catecismo³, n. 89)

Por fim, é necessário dizer que os dogmas tocam em diversos temas e áreas da doutrina. Temos dogmas sobre Deus Pai, Jesus Cristo, o Espírito Santo, sobre Maria, a Igreja e os sacramentos, sobre as realidades escatológicas, etc. Em nossos próximos textos percorreremos um caminho sobre os principais dogmas da Igreja, a fim de aprofundarmos nosso conhecimento acerca da nossa fé. Que o próprio Espírito Santo, que “vem em ajuda do Povo de Deus, iluminando-o e auxiliando-o, enquanto Corpo de Cristo, unido em comunhão hierárquica” (Mysterium Ecclesiae4, n. 3), nos auxilie nesta longa, mas frutuosa caminhada.

REFERÊNCIAS

¹ LACOSTE, Jean-Yves (org.). Dicionário crítico de teologia. 1. ed. São Paulo: Paulinas, 2004.

² BOFF, Clodovis. Teoria do método teológico. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2012.

³ CATECISMO da Igreja Católica. Edição revisada de acordo com o texto oficial em latim. São Paulo: Loyola, 1998.

4 CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ. Declaração Mysterium Ecclesiae acerca da doutrina católica sobre a igreja para a defender de alguns erros hodiernos. Disponível em: http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19730705_mysterium-ecclesiae_po.html#_ftn14. Acesso em: 30 jun. 2014.

Vinícius Pereira Silva

3º Ano de Teologia

Diocese de Guaxupé/MG

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