dEUS EXISTE

Os dogmas sobre Deus

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            Ao iniciarmos o percurso sobre os dogmas, temos que recordar que nem sempre o termo “dogma” foi utilizado na concepção que é usada hoje. Deste modo, é difícil encontrar livros que listem os dogmas um a um. Utilizaremos neste nosso caminho aquelas sentenças de fé, que mesmo que não tragam em si a expressão “dogma”, foram e são tidas como verdade de fé que deve ser acreditada por todos os fiéis.

            Queremos dar início em nosso estudo abordando os dogmas sobre a existência de Deus como objeto da razão e como objeto da fé. O sacrossanto Concílio Vaticano I, ocorrido em 1870, afirma que “há duas ordens de conhecimento, distintas não só pelo princípio, mas também pelo objeto”, ou seja, a razão natural e a fé divina. Na primeira, o homem chega a Deus; na segunda, Deus vem até a humanidade (DF¹ In: Denzinger, n. 3015). Falar destas verdades nos tempos atuais torna-se realmente importante, pois há um crescimento considerável no número de ateus e agnósticos e que deve ser encarado como um desafio para todos os fiéis.

            Sabemos que Deus criou todas as realidades existentes. Sendo assim, a criação inteira carrega em si marcas de Deus. O ser humano, criatura divina por excelência, foi criado de modo especial por Deus, pois Este plantou no homem o desejo por buscá-Lo. “Este desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si” (Catecismo², n. 27). O salmo 62 expressa esta realidade de uma forma belíssima: “A minh’alma tem sede de vós, minha carne também vos deseja, como terra sedenta e sem água!” (Sl 62,2). Todo o coração humano espera pelo encontro com Deus. E mesmo que esta união íntima e vital com Deus possa ser esquecida, ignorada e até rejeitada explicitamente pelo homem (Catecismo², n. 29), Deus, por sua parte, jamais deixa de buscar o ser humano. Podemos dizer que Deus também tem sede do amor humano, não por que necessite fundamentalmente dele, mas por que quer a felicidade de seus filhos.

            Com isso não queremos dizer que a ideia de Deus seja inata no homem, o que levaria a entender que Deus é mera construção da mente humana. Não! Deus não é fruto do pensamento humano, mas, este pensamento racional pode levar o homem até Deus. E é aqui que se insere a verdade de conhecer a Deus pela luz da razão humana. O Concílio Vaticano I afirma que “a mesma santa mãe Igreja sustenta e ensina que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, a partir das coisas criadas” (DF¹ In: Denzinger, n. 3004). Partindo da criação e de si mesmo o homem tem vias de acesso ao conhecimento de Deus. Como afirma o autor sagrado em Sb 13,1, considerando as obras, é possível reconhecer o Artista. A partir da beleza do mundo chega-se ao Belo por excelência. Também o senso do bem moral, a liberdade e a voz da consciência, além do desejo pelo infinito inscritos no próprio homem, interrogam-no sobre a existência de Deus (cf. Catecismo², n. 33).

            Este conhecimento pela razão natural é certo e ausente de erro. Sem ele, o ser humano não poderia acolher a Revelação de Deus. Pela razão pode se chegar ao Deus pessoal, uno e verdadeiro. Entretanto, pelas condições históricas em que se encontra, o homem esbarra em muitas dificuldades para conhecer a Deus apenas pela razão. Isto faz com que o homem tenha necessidade de ser iluminado pela Revelação de Deus (cf. Catecismo², nn. 36-38). Neste contexto insere-se a fé, que é dom vindo de Deus e necessário ao homem, pois mesmo podendo conhecer a Deus, existe uma ordem de conhecimento que é inalcançável para o ser humano a partir de sua própria força: a Revelação divina (cf. Catecismo², nn. 50). Deus, por sua vontade, quis se revelar aos homens. Expõe o Concílio Vaticano II que “aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade” (DV³, n. 2). Afirma ainda o Concílio que com esta Revelação dada em plenitude por Cristo os homens têm acesso ao Pai no Espírito Santo, a fim de que entrem em comunhão com Deus e tornem-se participantes da natureza divina. O Deus que “habita em luz inacessível, a quem nem um homem viu, nem pode ver” (1Tm 6,16), “fez-se carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Deus se revelou aos homens gradualmente, preparando-o para acolher a Revelação sobrenatural que faz de si e que chega ao seu ponto máximo na Pessoa e missão de Jesus Cristo, Verbo encarnado. Este Deus convida o ser humano a viver a comunhão com Ele. E “a resposta adequada a este convite é a fé” (Catecismo², n. 143).  Com a santa Igreja Católica Apostólica Romana crê-se e confessa-se “que há um só Deus verdadeiro e vivo (…) que deve ser pregado como real e essencialmente distinto do mundo” (DF¹, In: Denzinger, n. 3001).

            A fé é o meio que este Deus real e verdadeiro concede ao homem para que possa captar sua Revelação, que já está dada e contida “nos livros e nas tradições não escritas que, recebidas pelos Apóstolos da boca do próprio Cristo ou transmitidas como que de mão em mão pelos próprios apóstolos sob o ditado do Espírito Santo, chegaram até nós” (DF¹, In: Denzinger, n. 3006). Fé que é início da salvação humana e virtude sobrenatural, advinda da inspiração de Deus. A fé que faz entender e crer no que Deus se revela, “não devido à verdade intrínseca das coisas conhecidas pela luz natural da razão, mas em virtude da autoridade do próprio Deus revelante, o qual não pode enganar-se nem enganar” (DF¹, In: Denzinger, n. 3008). O homem não há de esperar outra Revelação pública antes da manifestação gloriosa de Jesus, Nosso Senhor (cf. Catecismo², n. 66), pois, mesmo que não totalmente compreendido, tudo foi revelado em Cristo

Resumindo e concluindo: pode-se conhecer a Deus pela razão natural em um esforço humano, semeado pelo próprio Deus no coração do homem; e pela fé, na adesão à Revelação que Deus faz de si mesmo. Estes são dogmas de fé. Como afirma a Sagrada Escritura, “A realidade invisível de Deus tornou-se inteligível desde a criação do mundo, através das criaturas” (Rm 1,20) e “pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela palavra de Deus e que as coisas visíveis se originaram do invisível” (Hb 11,3). Fé e razão não estão em oposição. Na realidade, são “como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade” (FR4, n. 1). E é buscando conhecer esta verdade, que é o próprio Deus, que continuaremos a percorrer este fascinante caminho dos dogmas cristãos. Peregrinemos na Luz de Deus!

Vinícius Pereira Silva

3º Ano de Teologia

Diocese de Guaxupé/MG

REFERÊNCIAS

¹ CONCÍLIO VATICANO I. Dei Filius: Constituição Dogmática sobre a fé católica. In: DENZINGER, H.; SCHÖNMETZER, A. Compêndio dos símbolos, definições e declarações de fé e moral. 2. ed. São Paulo: Paulinas, 2013.

² CATECISMO da Igreja Católica. Edição revisada de acordo com o texto oficial em latim. São Paulo: Loyola, 1998.

³ CONCÍLIO VATICANO II. Dei Verbum: constituição dogmática sobre a Revelação Divina. In: VIER, Frederico. (Coord.). Compêndio do Vaticano II: constituições, decretos, declarações. 29. ed. Petrópolis: Vozes, 2000.

4 JOÃO PAULO II, Papa. Carta encíclica Fides et Ratio: sobre as relações entre fé e razão. Disponível em: < http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_15101998_fides-et-ratio_po.html>. Acesso em: 11 ago 2014.

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