pedofilia_e_crime

Pedofilia: igreja e sociedade

0 66

Estão sendo denunciados, com inusitada freqüência, casos de pedofilia entre membros do clero. É triste e vergonhoso, mas é verdade. Provocam indignação ainda maior por causa da confiança depositada nessas pessoas e pela responsabilidade educativa que é traída.

Eles vêm engrossar as fileiras de adultos que ficam próximos de crianças e de adolescentes, no convívio familiar, ou por razões profissionais (saúde, educação, esporte, etc.) e deles abusam sexualmente, às vezes usando a mais odiosa violência, como os noticiários não cessam de relatar. A pornografia infantil que se difunde, como mancha de óleo, pelo mundo, alerta sobre as reais dimensões do problema.

É possível que em outras épocas, sexualmente menos “liberadas”, o problema não fosse tão freqüente ou, talvez, fosse menos visto e denunciado. É necessário agir para preservar as crianças e os adolescentes de graves danos, às vezes irreparáveis, à sua personalidade em formação.

A Igreja responde a esses desafios, de um lado, acelerando os procedimentos para afastar de seus quadros os membros pedófilos, com a pena da perda do estado sacerdotal. De outro lado, procura fazer com que cada sacerdote se identifique mais intensamente com Cristo e compartilhe de seus sentimentos e pensamentos, para ter suas mesmas atitudes, como o apóstolo Paulo nos admoesta. As tristes notícias das últimas semanas ajudarão a Igreja a purificar-se e a ficar mais atenta à formação do clero.

A Igreja é santa e pecadora diziam os Padres da Igreja dos tempos antigos. Ela tem consciência da fragilidade humana, da existência de contradições entre os seus membros, mas conhece a presença do Espírito Santo no seu seio e a possibilidade de sua vitória sobre o mal e sobre a morte.

Alguns pedófilos se tornaram sacerdotes, outros estão em âmbitos, religiosos ou não, em diversas profissões. De acordo com estudiosos, a maioria age no círculo das relações familiares. Por isso, não há nenhum nexo entre pedofilia e celibato.

A pronta ação da justiça retira de circulação os elementos que ameaçam o bem da sociedade e inibe a multiplicação de comportamentos anti-sociais. Mas, talvez, se façam necessárias ações no plano da cultura e na educação das novas gerações, para delinear de maneira mais clara a linha que separa a liberdade de pessoas, que parece não tolerar limites, e a necessidade de respeitar as crianças e os adolescentes, ajudando-os a crescer positivamente rumo à maturidade, com equilíbrio e justiça.

Pode-se compreender a veemência com a qual os meios de comunicação tratam da pedofilia de alguns sacerdotes, na maioria das vezes como fruto da indignação de quem da Igreja esperava algo melhor. Pode ser que para alguns, esta seja ocasião de atacar uma realidade que é percebida como espécie de consciência moral da sociedade, que incomoda com sua insistência em recordar as injustiças contra os pobres, as violências contra inocentes e indefesos.

Em alguns casos, é possível até não estar tão equivocado o senador italiano, o filósofo agnóstico Marcelo Pera quando, num artigo publicado em “Il Corriere della Sera” de 17 de março passado, escreveu: “Trata-se de uma guerra entre o laicismo e o cristianismo (…)”. O que importa não é o bem das crianças, mas a possibilidade de arranjar argumentos, mesmo que grosseiros, para insinuar que todos os sacerdotes são pedófilos, portanto a Igreja não ter autoridade moral e o cristianismo ser um engano e um perigo. Em seguida, o senador manifestava sua preocupação, porque no passado, quando se tentou destruir a religião, a democracia se perdeu e a razão ficou destruída.

Diante dessas circunstâncias, a Igreja aposta na punição dos culpados e no redobrado dom, generoso e total, de muitos sacerdotes e religiosos, testemunhas da beleza e da paz, da justiça e do bem que se encontra em Jesus Cristo. Esperamos que, desse modo, em nosso tempo, o esplendor da santidade de alguns possa fazer chegar o abraço de Cristo ao povo de nossas cidades, curando males, renovando esperança, trazendo alegria à humanidade ferida.

Cardeal Geraldo Majella Agnelo

Fonte: CNBB

Artigos Similares

Deixe seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Seu comentário será publicado após aprovação! *Campos obrigatórios. *