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Versões e traduções da Sagrada Escritura

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Uma pesquisa rápida em qualquer reunião de pastoral ou em um grupo de oração irá verificar, sem dificuldade, a existência de pelo menos três Bíblias “diferentes”. Estas diferenças podem ser de pequenas palavras ou até de livros inteiros. Deste modo, temos diversas Bíblias católicas, protestantes, ecumênicas etc. Embora, à primeira vista, possa parecer um empecilho para a leitura e partilhas comuns, esta variedade de versões e traduções pode enriquecer o estudo e o entendimento da Sagrada Escritura.

Segundo o exegeta jesuíta Johan Konings¹, quando falamos de versão nos referimos às variadas formas que o texto adquiriu ao longo do tempo. Já o termo tradução pressupõe a mudança de uma língua para outra, a partir de uma versão pré-existente. Exemplifiquemos. A Bíblia “Ave-Maria” foi originalmente feita em francês, a partir dos originais em grego, hebraico e aramaico. Esta é uma versão da Bíblia. Ao chegar ao Brasil tomou-se esta versão francesa e traduziu-se para o português. Aqui, portanto, temos uma tradução da versão em francês.

Esta diversidade é percebida desde os primórdios da Igreja. Os primeiros cristãos, em sua maioria de cultura grega, utilizavam principalmente a versão do Antigo Testamento conhecida como Septuaginta, em grego, em vez dos textos em hebraico. Esta versão, escrita pelos judeus da diáspora, possuía sete livros e alguns trechos a mais que a hebraica, mas era tolerada pelos judeus da Terra Santa. Foi no Sínodo rabínico de Jâmnia, ocorrido por volta do ano 90 d.C., que os membros do judaísmo formativo, a fim de determinar os limites entre judeus e cristãos, recusaram estes acréscimos por terem sido escritos fora da Terra Santa, em uma língua diferente do hebraico e por narrarem acontecimentos posteriores a época de Esdras e Neemias (pós-exílio babilônico).

Já o Novo Testamento foi todo escrito em grego e levou cerca de cem anos para ser terminado.

Aos poucos, a cultura predominante entre os fiéis foi deixando de ser a grega, passando a destacar-se a romana, que utilizava o latim. Isto se intensificou com a “oficialização” da Igreja por parte do imperador Constantino. Foi necessária, portanto, a tradução para a língua latina, a fim de aproximar o texto bíblico do povo. A pedido do papa Dâmaso I, São Jerônimo, um grande autor patrístico do séc. IV, empenhou-se neste intento, entregando o texto integral da Bíblia em latim à Igreja. Esta versão ficou conhecida como Vulgata (vulgus, em latim, é povo) e foi a adotada oficialmente pela Igreja ocidental durante quase toda a sua história. A partir da descoberta de manuscritos do Antigo Testamento, no ano de 1947, em cavernas próximas a Jerusalém, todo o texto bíblico da Vulgata foi revisado, corrigido e purificado, resultando na edição da Neovulgata, promulgada como oficial para a Igreja Católica a partir de 1979, com a Constituição Apostólica Scripturarum Thesaurus2, do papa João Paulo II. Sua utilização principal, ressalta o Santo Padre, é na Liturgia, sendo vivamente recomendada também para o uso pastoral, de estudo e de anúncio da Palavra.

Diante de tudo isso, nos perguntamos: qual é a Bíblia mais certa? A resposta é: Nenhuma. Até mesmo a Vulgata, tida como autêntica e oficial, não exclui o uso de outras traduções e versões e isso é atestado em diversos documentos pontifícios (Providentissimus Deus3, 27; Divino Afflante Spiritu4, 14). Não obstante, até promove-se o uso de outras versões que contam com credibilidade, inclusive as feitas em colaboração com os “irmãos separados”, a fim de ampliar o acesso dos fiéis à Sagrada Escritura (Dei Verbum5, 22). Isto porque nenhuma tradução ou versão consegue transpor perfeitamente o sentido primeiro do texto, com todos os seus detalhes e conotações. Um antigo adágio diz: traduttore, traditore. Todo tradutor é traidor. As traduções não são desprovidas de elementos pessoais do tradutor. Isto nos leva a conclusão de uma única tradução não bastar (KONINGS, 2011, p. 24). Uma única certa não existe, sendo errônea a atitude de desprezo por traduções não utilizadas em nosso círculo, ou até mesmo em nossa Igreja.

É enriquecedor ver as nuances de cada tradução, auxiliando a aproximar do sentido primeiro do texto e o que ele nos fala no hoje de nossas vidas. Ademais, é de suma importância possuir aquela Bíblia “de cabeceira”, com a qual Deus fala conosco e nós a Ele respondemos.

Que o mesmo Espírito Santo que inspirou os autores sagrados (Dei Verbum, 12), nos leve a nos alimentarmos da Palavra e, que por nosso testemunho e anúncio “a Palavra de Deus se difunda e resplandeça” (cf. 2Ts 3,1), pois como afirma São Jerônimo, “ignorar as escrituras, é ignorar Cristo”.

Vinicius Seminarista Guaxupé

Vinícius Pereira Silva
3º Ano de Teologia
Diocese de Guaxupé/MG

 

 

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¹ KONINGS, J. A Bíblia, sua origem e leitura – Introdução ao estudo da Bíblia. 7. ed. atualizada. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

 

2 Constituição Apostólica Scriptuarum Thesaurus – http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_constitutions/documents/hf_jp-ii_apc_19790425_scripturarum-thesaurus_po.html

 

3 Encíclica Providentissimus Deus (Inglês) – http://www.vatican.va/holy_father/leo_xiii/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_18111893_providentissimus-deus_en.html

 

4 Carta Encíclica Divino Afflante Spiritu – http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_30091943_divino-afflante-spiritu_po.html

 

5 Constituição Dogmática Dei Verbumhttp://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651118_dei-verbum_po.html

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