Vocação: da aptidão ao abandono em Deus

Vocação: da aptidão ao abandono em Deus

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No Google, o verbete “vocação” gera nada mais nada menos que 5.060.000 sites relacionados como resultado. Em 48 segundos! Imagine! Já “Vocation”, no mesmo site elenca o total de 54.600.000 sites. No mínimo se há de convir que muita gente boa já tratou do tema. Contudo resta sempre aquela marca do mistério ainda a ser desvendado, própria de tudo aquilo que se relaciona com Deus e que nos garante que muito ainda pode ser dito. Este é um daqueles temas que rendem retiros, livros e pregações e não passam pelo risco de se esgotarem.
Ainda sem ter passado por retiros, aulas, congressos ou lido muitos livros ao respeito, toda pessoa tem um conceito mais ou menos estabelecido do que seja vocação. É aquele tipo de palavra que nos custa enclausurar num significado, mas que intuitivamente constatamos que sabemos por senso comum. Se fôssemos perguntados: “Você sabe o que é vocação?” Responderíamos enfáticos: “Sim, eu sei!”
No dia a dia podemos ver claramente isso. “Fulano nasceu para isso!” “Mariazinha tem vocação para médica, olha como ela cuida do irmãozinho!” “Tal profissão é uma vocação: ou a pessoa nasce para isso, ou não tem como aguentar!”
Esse é um conceito intuitivo e social do que seja vocação, que recebemos do convívio e daquela intuição própria do Espírito, da consciência que nos inspira a vontade de Deus. São muitas as coincidências, mas porque este conceito traz suas influências da sociedade, da história, dos valores atualmente estabelecidos, cria em nós falsas ideias, uma mentalidade sutil e por vezes equivocada.
Um dos perigos desse conceito social é acreditar que vocação se relaciona a aptidão, capacidade, talento. Esse é um critério instrumentalista do que seja vocação. Esta, para o cristão, tem um dado divino fundamental. É uma iniciativa de Deus, livre, incondicionada e, por vezes, humanamente inexplicável. A vocação indubitavelmente tem um dado que remete a estatura de Deus, que interpela e convida a não viver segundo medidas humanas, mas que eleva a existência ao transcendente. Toda vocação autêntica terá como pedra de toque esse extraordinário, essa medida que me ultrapassa e que sem o auxilio da graça reconheço ser irrealizável.
Seria como um copo que precisa ser cheio para que a vocação seja plena em mim, mas que reconheço que existe em meu interior apenas uma pequena parcela, impossível para encher totalmente o copo. Esse reconhecimento me põe nas mãos providentes do Senhor, que me cumulará com a sua graça, dando-me o que não existe e gerando o que não há em mim de fidelidade, de amor.
Se ainda creio, contudo, que vocação é uma aptidão a ser realizada, me espantarei e me afastarei diante da grandiosa proposta de Deus, julgando que aquilo não seja para mim, que não tenho condições de corresponder, que não sou capaz para tanto. Afastar-me-ei triste, apoiando-me muito mais em mim mesmo e desconfiando da potência da graça. Amargarei uma vida menor, mais triste, menos realizada, pelo meu insistente medo de dizer SIM.
Essa é uma sabedoria de Deus em relação à vocação. De outra forma, sofreria o risco de crer-me capaz, da vocação me ser possível, de ser um feito realizável por minha boa vontade ou força. Não o é! “Ninguém triunfa se apoiando em suas forças!” diz o salmista.
Vocação não é talento, não é capacidade, não é aptidão! É eleição benevolente, misericordiosa. É o livre beneplácito do Senhor, que nos elege para que em nossas forças insuficientes resplandeça a sua Glória. Ele nos escolheu, e o fez porque quis. Não há justificativas para além disso.
Lembro-me que dentro de meu discernimento vocacional, o Senhor me levava a perceber sua vontade justamente porque era inimaginável a mim, me superava, me interpelava. Reconheci em ultima instância que era um Desejo gerado pelo próprio DEUS, pois eu mesma o desconhecia.
Que Deus nos conduza à liberdade e alegria por reconhecer sua escolha livre por nós e nos leve ao abandono de trilhar por caminhos onde ele seja a nossa força e, abandonados, digamos no sempre do hoje o nosso FIAT, “faça-se”.
por Marcela Mendonça Missionária da Comunidade de Aliança Shalom/Uruguai
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